Quando nos debruçamos sobre as medicinas ancestrais, é comum nos depararmos com uma prática que tem ganhado cada vez mais destaque em retiros e vivências xamânicas: o temazcal.
Mas você sabe de onde vem essa prática? E como ela se desenvolveu ao longo de milhares de anos? Se a sua resposta foi “não”, continue comigo. Vou te contar um pouco mais sobre o temazcal e o que a maioria das pessoas não te fala sobre ele.
Temazcal: o que é?
Temazcal é uma prática originária da Medicina Tradicional Mexicana, na qual constrói-se uma pequena casa aquecida com pedras quentes e realiza-se práticas de cura física, mental, emocional e espiritual.
A palavra temazcal deriva do nahuátl temazcalli. Temaz significa banho de vapor e calli significa casa. Ou seja, o significado de temazcal é “casa de banho de vapor”.
Esse tipo de prática não é exclusiva da Medicina Tradicional Mexicana, sendo mencionada em diversas culturas, como a finlandesa, turca, romana e indiana, por exemplo.
Mas o temazcal tem características próprias que merecem a nossa atenção, já que essa prática vem se espalhando pelo mundo e atraindo cada vez mais pessoas.
Temazcal: origem e significado simbólico
Embora não saibamos exatamente quando o temazcal passou a ser praticado pelos povos originários do México, os registros antropológicos apontam para meados de 250 d.C. Ou seja, mais de 1700 anos.
Praticado por astecas e mayas, entre outros povos mesoamericanos, o temazcal é muito mais do que uma sauna. Trata-se de uma ponte entre o inframundo e o mundo natural, marcando rituais de passagem como o nascimento e a morte.
Símbolo do ventre da Terra, o temazcal é associado à Deusa Temazcalteci, divindade dos banhos de vapor. Ela também é associada à água, à terra, à fertilidade, à medicina e aos rituais de iniciação.
Em algumas regiões, ele também é relacionado a Ix Chel, a Deusa da Lua, da terra, do parto e da medicina.
Como símbolo ventre materno, o temazcal é interpretado como um lugar de morte e renascimento, no qual somos convidadas a retornar ao mais íntimo do nosso ser para renascer para uma nova vida.
Por isso, em determinadas regiões são usadas plantas visionárias durante os rituais no temazcal, como a Salvia divinorum, conhecida como hierba de la pastora (erva da pastora), o Psilocybe mexicana, mais conhecido como cogumelo mágico, e o peyote (Lophophora williamsii).
Por ser associado à lua, o temazcal também carrega a simbologia da fertilidade, da agricultura, da regeneração, da menstruação, das águas e dos ciclos da vida.
Nesse sentido, ele conecta a nossa realidade à potencialidade da vida que reside na terra, que é quente, úmida e escura, assim como o ventre da Grande Mãe.
A arquitetura simbólica do temazcal
As culturas antigas compreendiam a realidade a partir de opostos complementares: sol e lua, dia e noite, quente e frio, masculino e feminino. Uma polaridade não pode existir sem a outra, portanto, não há questões hierárquicas nesse entendimento.
Na construção do temazcal, essas polaridades são representadas de inúmeras formas.
O fogo que arde no centro, representando o masculino, se complementa com a água, símbolo do feminino. As divindades representadas no interior da construção trazem suas duas polaridades, masculina e feminina, numa dança eterna que busca a união dos opostos.
Os animais e elementos naturais lembram da nossa verdadeira origem e marcam o calendário cerimonial, que acompanha não só o movimento da lua, mas o tempo de semear e colher. De morrer e de renascer.
Temazcal como instrumento terapêutico
Um dos principais usos do temazcal é a promoção de curas, tanto físicas quanto emocionais, mentais e espirituais. Essas curas também podem ser individuais ou coletivas, já que, para os povos originários, a saúde e a doença se manifestam coletivamente.
Terapia individual
Com a presença de uma curandeira (o), xamã ou líder espiritual, a pessoa que está enferma adentra o temazcal e passa por uma séria de rituais que envolvem cantos, rezos, uso de plantas sagradas e ervas medicinais.
O calor promovido pelas pedras quentes, junto ao vapor de água, auxilia na purificação do corpo, restabelecendo o equilíbrio entre a pessoa e o seu entorno.
O temazcal pode auxiliar no tratamento de dores ósseas, reumatismo, obesidade, catarro, hérnia, espasmos musculares, paralisia, neuralgia, psoríase, problemas de pele, entre outros.
Terapia coletiva
O temazcal também é tradicionalmente utilizado como um espaço de cura coletiva, onde os membros da família, vizinhos e amigos próximos se reúnem para realizar uma purificação conjunta.
Além dos benefícios para a saúde das pessoas, essa prática ajuda no fortalecimento da comunidade e na criação de vínculos, essenciais para a continuidade da tradição.
Terapia gestacional
O temazcal também vem ganhando bastante destaque por ser um instrumento terapêutico muito utilizado pelas parteiras tradicionais antes, durante a após o parto.
Antes do parto, a mulher passa por um processo de preparo do corpo para o momento de dar à luz, a fim de posicionar o bebê adequadamente e manter o corpo em equilíbrio.
Durante o parto, o calor e umidade do temazcal ajudam na dilatação, na redução da dor e também na manutenção da saúde da mãe e do bebê, protegendo-os do frio.
No pós-parto, as parteiras tradicionais levam a mulher para o temazcal a fim de recuperar o corpo da mãe. As práticas conduzidas neste momento têm como objetivo eliminar o excesso de água no corpo, reduzir a inflamação abdominal, regular a produção do leite, limpar o útero, reduzir o sangramento e devolver a vitalidade à mulher.
Geralmente, os banhos são feitos uma vez por semana durante 40 dias, mas cabe à parteira definir todo o processo.
Temazcal como portal iniciático
O temazcal também pode ser utilizado como portal iniciático, por meio de rituais e cerimônias que marcam momentos de passagem na vida das pessoas.
Quando um bebê nasce, ele passa por um ritual de purificação física e simbólica, a fim de ser recebido no mundo natural e cortar seus laços com o inframundo.
As mulheres, por sua vez, passam por cerimônias de menarca, concepção e menopausa, criando vínculos entre si e com as divindades regentes dos ciclos femininos.
Para os homens, o temazcal pode ser a porta de entrada para a vida adulta e para a velhice, recebendo ensinamentos dos mais velhos e dos ancestrais.
Temazcal, modernidade e a ruptura com o sagrado
Como você deve saber, os conhecimentos milenares dos povos originários foram sistematicamente atacados e, em muitos casos, completamente apagados dos anais da história.
Quando não podiam ser apagados, foram incorporados sob o viés ideológico ou religioso. E com o temazcal, não foi diferente.
Os invasores espanhóis associavam as práticas de cura dos povos originários a bruxaria, ações demoníacas ou pecaminosas. Portanto, proibiam tais práticas e condenavam curandeiras, parteiras, xamãs, herbolários, entre tantos outros à prisão ou à morte.
No caso do temazcal, inicialmente a prática foi proibida. Como viram que não conseguiriam apagar a tradição, estipularam regras. Homens e mulheres não poderiam mais compartilhar do mesmo temazcal e a prática deveria ser voltada somente à terapêutica, excluindo-se outras aplicações rituais.
Em meados do século XVIII, o temazcal foi liberado como prática de higiene e associado a questões de saúde pública. No entanto, mantinha-se a divisão entre homens e mulheres e ninguém poderia desnudar-se durante a terapia.
A partir do século XIX, o temazcal passou por uma incorporação cada vez maior nas práticas ocidentais, agora com ares de “spa”, desconectando-o totalmente do significado original, simbólico e ritual.
Hoje, muitas pessoas associam o temazcal com uma sauna exótica, para fins estéticos e de status social, incorporando elementos de uma tradição milenar e carregada de significado a uma realidade superficial e desprovida de qualquer conexão com o espiritual.
Mas ainda existem pessoas dispostas a manter a tradição, a respeitar o significado simbólico, cultural e espiritual dessa prática que transcendeu não só o tempo, mas a violência dos invasores.
E são essas pessoas que precisamos valorizar, destacar e celebrar.
Obrigada por me ler até aqui e a gente se fala no próximo artigo.
Eve
Referências:
TINAJERO, G. R. La práctica del temazcal como símbolo y ritual en el contexto de la globalización en Tepoztlán, Morelos. Ciudad de México, 2025.
Foto: https://nomadetulum.com

