A história das mulheres está intrinsecamente conectada com a criação, preservação e finalização da vida. Como verdadeiros portais entre matéria e espírito, capazes de gerar a vida dentro de nossos próprios corpos, assim como a Mãe Natureza o faz, fomos agraciadas com o dom da cura.
Desde tempos remotos somos as guardiãs da sabedoria das plantas, as mestras do processamento dos alimentos e da nutrição. Somos o elo que conecta as comunidades e o olhar sereno antes da última despedida.
Exatamente por isso, fomos as primeiras médicas da história, zelando pela vida em todas as etapas. Mas quando esse dom se tornou incômodo demais para o patriarcado, começamos a ser sistematicamente apagadas dos anais da existência. É como se estivéssemos sempre à margem, como observadoras, nunca como protagonistas.
Mas pouco a pouco essa memória tem se revelado, principalmente pelas mãos e olhares desafiadores de mulheres que buscam resgatar a nossa ancestralidade. E hoje quero compartilhar com você um pouquinho da memória das tabibeh, as médicas tradicionais do Irã.
Medicina Tradicional no Irã: um ofício de homens e mulheres
No período pré-islâmico, as práticas médicas estavam intrinsecamente conectadas com a religião predominante, o Zoroastrismo. Nesse sentido, podemos encontrar no Avesta as primeiras informações registradas sobre práticas de cura.
Segundo esse livro sagrado, o corpo é a contraparte da alma, portanto, qualquer descuido com o corpo é, também, um descuido com a alma. Logo, manter uma boa saúde se torna um dever religioso e um compromisso da pessoa com a sua própria evolução espiritual.
Os princípios médicos trazidos no Avesta consideram que qualquer tratamento deve levar em consideração os aspectos físicos, mentais e espirituais e citam cinco tipos de cura:
- cura pela bondade e cuidado;
- cura com justiça;
- cura com cirurgia;
- cura com plantas;
- cura com mantras.
Inclusive, o Avesta menciona a prática de cesarianas há mais de 3500 anos, bem como o uso de plantas enteógenas, como a haoma, para a cura espiritual.
Infelizmente, desta época, não sobraram muitos registros sobre pessoas envolvidas com as práticas de cura. Mas sabe-se que as mulheres tinham liberdade para atuar em inúmeras profissões, comerciar com outras pessoas e deter a propriedade de terras. Logo, podemos inferir que elas atuavam na medicina tanto quanto os homens.
Já no período islâmico, os registros passam a apagar a participação das mulheres nas atividades da sociedade, restando poucas informações sobre as tabibeh. Mas, ainda assim, podemos encontrar menções a mulheres médicas e o prestígio que elas tinham na sociedade.
Tabibeh: as médicas tradicionais iranianas
As mulheres que tinham acesso à educação eram livres para estudar os livros de medicina e praticar a atividade. Logo, havia cirurgiãs, oftalmologistas, ginecologistas, pediatras e várias outras especialistas. Contudo, devido às leis islâmicas, elas só podiam tratar mulheres e crianças.
No período clássico, o tratamento de lesões e doenças uterinas era feito exclusivamente pela mãe, amigas, parteiras e obstetras.
Em algumas tribos, como os Bakhtiari, a medicina é transmitida de forma hereditária, isto é, de mãe para filha. Além disso, sempre que um pai ou mãe descobre um novo medicamento, ensina sua filha mais velha a usá-lo e não ensina aos filhos, pois não os considera dignos de tal ato.
Muitas mulheres recebiam treinamento em instituições formais e atuavam diretamente em hospitais e clínicas. Elas também visitavam pacientes em suas casas e algumas até recebiam pacientes em suas próprias casas.
A tenda de Rufaida al-Islamiah e Kabiah (620 d.C.) foi considerada o primeiro hospital do Islã, onde várias mulheres treinadas por ela trabalhavam nos cuidados de feridos durante a jihad. Além disso, ela dirigiu o primeiro sistema de cuidados paliativos do mundo.
Além de médicas, essas mulheres também eram versadas no Alcorão e acumulavam outras profissões, como é o caso de Umm al-Hassan, que também era poetisa.
Sheikha Rahjib ficou conhecida por sua atuação em ginecologia e obstetrícia e Al-Shifaa pelo tratamento de doenças de pele. Um ‘Atiah Al-Anṣariah foi oftalmologista e Ubi or Khanjan pela habilidade em cirurgia.
Foram as tabibeh que classificaram todos os medicamentos, doenças e alimentos em quatro categorias: quentes, frios, úmidos e secos. Essa classificação é uma das bases para o entendimento e aplicação da Medicina Tradicional Iraniana.
Como os homens não podem tocar as partes íntimas de uma mulher, na falta de uma médica, era uma parteira quem realizava exames e até cirurgias, o que demonstra que elas também tinham conhecimento especializado.
Seti al-Nisa (1580-1647 d.C.) ocupou o cargo de médica especialista no palácio de Shah Jahan (1627-1658 d.C.), no Norte da Índia, o que comprova o prestígio das tabibeh e também a influência das mulheres na Medicina Tradicional Indiana.
Khani Khan Khanum, mãe de Ali Qoli Khan Shamlu, também praticava medicina no harém real, assim como Pasha Khatun, tia do Xá Ismail Safávida, que era cirurgiã.
Além da medicina, as mulheres também se destacavam na farmacologia tradicional, isto é, o conhecimento das plantas medicinais e preparados herbais.
Milhares de mulheres atuaram como médicas, parteiras, enfermeiras, curandeiras e herbalistas durante a história do Irã. Algumas tiveram seus nomes perpetuados em livros, mas a maioria delas não teve o mesmo respeito e consideração.
No entanto, o seu legado não deixou de existir. Ele continua vivo, sendo transmitido de mulher para mulher, de tabibeh para tabibeh, de geração em geração de mulheres que resgatam a sua memória e a sua sabedoria.
Se você me leu até aqui, saiba que agora você também carrega a responsabilidade de lembrar e celebrar essas mulheres, porque elas continuam vivas em cada mulher muçulmana, assim como em você.
Um forte abraço e a gente se fala no próximo artigo.
Eve.

