Se você, assim como eu, é estudante de Ayurveda, seguramente já ouviu, repetiu e até decorou a frase que dá início ao Ashtanga Hrdayam:
“raga adi rogan satata anushaktan ashesha kaya prasrtan asheshan, autsukya moha aratidan jaghana yo apurva vaidya namo’stu tasmai”.
E também seguramente ouviu dizer que essa é uma saudação ao único, incomparável, raro médico que destruiu todas as doenças, como a raiva, a cobiça, etc.
Tenho também certeza de que essa explicação veio com um peso enorme no termo médicO.
Mas o que ninguém te conta é que vaidya é um substantivo que pode ser tanto masculino, quanto feminino, quanto neutro.
Em outras palavras, não podemos afirmar, de forma alguma, que esta saudação é feita a um homem. Muito menos a um ser humano.
A construção da ideia de que vaidya refere-se a um homem é social e vem impregnada de milhares de anos de domínio do patriarcado.
Que tal desconstruirmos isso? Vem comigo!
A origem etimológica da palavra vaidya
Uma das melhores formas de compreendermos o real significado das palavras é irmos em busca de sua origem etimológica. E quando o assunto é vaidya, damos um passo atrás e encontramos que esse palavra é derivada de vidyā que, por sua vez, é derivada de vid.
Segundo o Dicionário Prático de Sânscrito-Inglês, vid (विद्) significa conhecer, compreender, descobrir, sentir, vivenciar, considerar, tornar conhecido, ensinar, sentir, ser, existir, experimentar.
Já o Dicionário Sânscrito-Inglês Shabda-Sagara nos diz que vid significa “quem ou aquele/aquela que sabe”. E aqui temos uma clara relação com o termo shaman do idioma tungulu, que também significa “aquele/aquela que sabe”.
Essa é exatamente a mesma denominação que temos para outras palavras, como pajé, marakame, machi ou simplesmente xamã, o que sinaliza que o termo vaidya se referia, originalmente, a curandeiros e curandeiras indígenas, pessoas capazes de acessar outros estados de consciência e promover a cura física, mental e espiritual.
Outro ponto para o qual você precisa se atentar é que o termo vid pode ser masculino, feminino ou neutro. Ou seja, não há como determinar gênero a partir desta raíz. Agora vamos a vidyā.
De acordo com o Dicionário prático de sânscrito-inglês, vidyā significa conhecimento, aprendizagem, tradição, ciência, um conhecimento correto ou espiritual, um feitiço, um encantamento, uma habilidade mágica e… a Deusa Durgā. Vidyā também é um substantivo feminino.
Vaidya, por sua vez, significa uma pessoa que possui vidyā, isto é, o conhecimento correto, o conhecimento espiritual, a habilidade mágica, geralmente associados aos Vedas. Também podemos concluir que vaidya é quem tem o conhecimento sobre Durgā, o Princípio Feminino.
Durgā é a Mãe Universal, a Realidade Última, chamada Brahman, segundo o Devi Mahatmya e o Devi Bhagavata Purana. Ela é a personificação da criação, preservação e destruição. O décimo mangala do Rig Veda fala sobre a natureza de Durgā:
“(…) eu permeio todas as criaturas existentes, como seu Eu Supremo Interior, e as manifesto com meu corpo. Criei todos os mundos à minha vontade, sem nenhum ser superior, e os permeio e habito neles. A consciência eterna e infinita sou eu, é a minha grandeza que habita em tudo.”
E o que é o Ayurveda, senão o conhecimento da manifestação do feminino?
Explorando a história e os sinais no Charaka Samhita
Como o próprio prólogo do Charaka Samhita nos conta, o conhecimento foi compilado por Agnivesha (Agniveśa), redigido por Charaka (Caraka) e editado — acrescentado ou suprimido — por Drdhabala (Dr̥ḍhabala).
Séculos mais tarde, Vagbhata faz um resumão das obras anteriores a ele, visando atender aos estudantes menos inteligentes.
Quem era Agniveśa?
Retomando a história, Agniveśa teria compilado o conhecimento do Ayurveda a partir das exposições de Ātreya por volta de 1000 a.C.
A palavra Agniveśa é a junção de agni e veśa. Logo, Agniveśa pode ser traduzido por “habitação de Agni”. Se você leu meu artigo sobre agni, sabe que ele pode ser comparado à Alma. Portanto, zero indicação de que seja homem ou mulher.
Ātreya, por sua vez, pode significar descendente, discípulo ou um membro da tribo de Atri. Outra vez, zero indicação de que seja homem.
É dito que Atri era um dos saptarishis e casado com Anasūyā Devi, também uma asceta de grande sabedoria. Portanto, uma brâmane. Quando visitada por Rama e Sita, Anasūyā presenteia Sita com unguentos. Logo, tinha conhecimento das ervas e seus usos.
Fica a pergunta: Ātreya seria Anasūyā?
Quem foi Charaka?
Séculos depois, Caraka toma o trabalho de Agniveśa e o redige. O texto original não existe mais. Logo, ficamos com a versão de Caraka, que pode ter sido fiel aos ensinamentos originais ou não. E mais: será que o idioma original era mesmo o sânscrito?
A escrita harappiana, que é a mais antiga de que se tem notícias no Vale do Indo, esteve presente pelo menos até 1900 a.C. O idioma que deu sequência a ela foi a escrita brahmi, que desapareceu em meados de 300 a.C., ou seja, justo quando há a ascensão da casta brâmane e do sânscrito como idioma oficial. Ao mesmo tempo, os direitos das mulheres eram usurpados gradativamente.
O idioma original do conhecimento feminino não seria também apagado?
Mas quem era Caraka, afinal? Embora Caraka sempre tenha sido retratado como um homem, trata-se de um título dado às pessoas especialistas em medicina que viajam de um lugar a outro curando as pessoas.
A palavra caraka, em sânscrito, vem da raíz car, que significa girar, mover, vagar. Também pode significar realizar, fazer, agir, viver, ser, existir, continuar sendo. Portanto, não podemos afirmar categoricamente que tenha sido uma pessoa, muito menos do sexo masculino.
Sequer podemos dizer que foi uma única pessoa, já que car também é a raiz da palavra cakra, que significa roda, círculo ou grupo, entre outras possibilidades.
E onde entra Dr̥ḍhabala?
Finalmente, vem a edição de Dr̥ḍhabala, entre os séculos III e IX. Assim como Caraka, ninguém sabe exatamente quem foi essa pessoa. Mas vamos entender seu nome.
A palavra dr̥ḍha significa forte, persistente, inabalável. Pode significar, também, perseverante e confiável. Ela vem de uma outra raiz, dṛh, que significa crescer, prosperar.
Bala, por sua vez, quer dizer força, poder, vigor. Também pode significar sangue ou potência.
Alguma menção a gênero? Eu não vejo. Diante disso, podemos depreender que a afirmação de que havia somente homens vaidyas e que os textos do Ayurveda foram escritos por homens é uma construção social, que precisa ser urgentemente revista e recontada.
A grande apurva vaidya
Embora os rishis e rishikas fossem realmente pessoas de muita sabedoria, capazes de acessar estados de consciência que estão fora do nosso alcance atualmente, continuavam sendo seres humanos. E como tal, passíveis de erros.
Basta voltarmos às origens do Ayurveda para percebermos que esses seres, tão iluminados, foram em busca do conhecimento do Ayurveda porque estavam ficando enfermos, tanto quanto os seres “comuns”.
Outro ponto que precisa estar sob a nossa atenção é de que na famosa conferência que deu base para o Charaka Samhita havia cinco categorias de participantes:
- yayavaras: não tinham residência fixa;
- shalinas: tinham residência fixa;
- ayonijas: não nasceram de um útero;
- vaikhanasa: eram eremitas;
- valakhilyas: tinham o tamanho de um polegar.
Pessoas que não nasceram de um útero são o quê? Divindades ou seres de outros planos de existência. Se é um ser humano, obrigatoriamente nasceu de um útero, certo?
Você já viu um ser humano do tamanho de um polegar? Eu nunca. Mas o Shiva Purana fala dessas pequeninas divindades que viviam dos raios do sol.
Cabe ressaltar também que não há referência a masculinidades ou feminilidades. Então não podemos afirmar que eram apenas homens.
Basta nos aprofundarmos nos nomes dos discípulos de Ātreya para entender que é impossível sabermos quem eram esses seres de fato:
- Bhela: ignorante;
- Jatūkarna: orelhas de morcego;
- Parāśara: flecha certeira;
- Hārīta: pombo verde;
- Kṣārapāni: mão fluida ou mão ligeira.
Deixo aqui a observação de que esses nomes podem ser explorados de uma outra maneira. Mas vou deixar para um próximo artigo.
O que eu quero dizer com tudo isso?
Que na minha opinião, nenhum ser humano seria capaz de vencer absolutamente todas as doenças. Portanto, a grande apurva vaidya é a Natureza.
Inclusive, no comentário de Chakrapani ao Charaka Samhita, ele esclarece:
“A Ciência da Vida [Ayurveda] poderia ser explicada apenas quando alguém possuísse o conhecimento de todas as qualidades específicas de todas as medicinas, todas as substâncias, etc. Mas pode alguém possuir a direta percepção de todas as qualidades específicas de todas as categorias do Universo? Uma pessoa não pode.”
Portanto, somente a Natureza, que é Amor Puro e Devocional, é capaz de vencer todas as doenças, em especial as doenças do ego, como raiva, paixão, luxúria, ganância, etc.
Se quisermos trazer para o plano humano, então a grande apurva vaidya é Anasūyā, cujo nome significa “livre de inveja e malícia”. É dito sobre ela:
“Quando a terra foi devastada por uma terrível seca que durou 1 ano, Anasūyā criou água, frutas, raízes etc. por meio de seus poderes ascéticos e salvou muitas vidas.”
Quem é capaz de criar água, frutas, raízes etc.? A Natureza.
O ser humano que se intitula vaidya — seja homem ou mulher — é apenas um canal, um instrumento da sabedoria da Natureza. E você não precisa ir muito a fundo no conhecimento do Ayurveda para entender isso.
Estudamos propriedades de substâncias minerais, vegetais e animais. Aprendemos sobre a influência dos movimentos do Sol e da Lua em nossas vidas.
Descobrimos que é o descompasso com os ritmos da Natureza que nos adoece. E desvendamos os segredos Dela, a Natureza, para nos curar.
Nada disso é conhecimento humano. Nada disso é propriedade de uma única espécie. Nada disso é conhecimento exclusivo de quem tem um pênis.
O que aconteceu, ao longo dos milênios, foi a apropriação indevida de uma sabedoria que foi dada a todas as espécies. Repito: a todas as espécies.
Isso porque desde uma formiga até o ser humano, passando pelas centenas de milhares de espécies animais, vegetais e minerais do planeta, todos somos pequenas partículas da Natureza e todos podemos curar. Se você duvida disso, te convido a descobrir como as formigas são exímias cirurgiãs.
Compreender isso é voltar à sabedoria dos rishis e rishikas, que não se viam apartados do Kosmos. E justamente por essa razão tinham acesso ao conhecimento do Ayurveda não por livros, não pela escrita, mas pela perfeita comunhão com o Universo.
Obrigada por me ler até aqui e a gente se fala no próximo artigo.
Eve.

