Se você já deu uma espiada no Charaka Samhita ou já participou de algum curso de aprofundamento em Ayurveda talvez já tenha ouvido um sloka muito famoso, que diz:
hitāhitaṁ sukhaṁ duḥkhamāyustasya hitāhitam
mānaṁ ca tacca yatroktamāyurvedaḥ sa ucyate
Ca.Su.1:41
E provavelmente já tenha ouvido pessoas resumirem a ideia desse sloka na dualidade saúde-doença e felicidade-sofrimento (pelo menos foi o que eu vi nos cursos que fiz).
Mas recentemente comecei a me aprofundar na filosofia Vaisheshika e descobri que existe um universo inteiro de entendimento dentro deste sloka. E é isso que eu quero compartilhar com você neste artigo.
Pronta para romper fronteiras e aprender um Ayurveda mais profundo?
Sukha: muito mais do que felicidade
Quando resumimos sukha à ideia de felicidade, estamos perdendo a profundidade deste conceito e tornando-o algo bastante abstrato. Afinal, o que é felicidade?
Se formos buscar a origem etimológica da palavra felicidade, encontraremos que ela significa algo fecundo, fértil, e está relacionada à agricultura. Atualmente, ela traz uma conotação de sentimento de plenitude, de alegria, de êxtase.
Acontece que a filosofia Vaisheshika não equipara sukha à ideia de felicidade ou alegria, mas sim ao prazer. E quando falamos em prazer, não podemos deixar de lado nossos cinco sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar.
Aqui, preciso adicionar um “sexto sentido”, já que, para o Ayurveda, a mente controla todos os sentidos, sendo uma espécie de centro de comando que recebe os impulsos externos. Logo, a mente também é capaz de sentir prazer.
O prazer, assim como a dor (duhkha), é uma qualidade (guna) especial de Atma (alma). Gunas, por sua vez, são o meio pelo qual podemos perceber e nomear a realidade. Alguns exemplos de gunas são quente, frio, claro, escuro, viscoso, não-viscoso, líquido, sólido, etc.
Perceba que sempre temos duplas aparentemente opostas. Contudo, para a tradição Vaisheshika, essa oposição não é antagônica, mas sim complementar. Isso significa que você não perceberia o prazer (sukha) se não houvesse dor (duhkha), assim como não perceberia o dia se não houvesse noite.
Mas o que é esse prazer, afinal?
Se a ideia de prazer te remete à sexualidade, saiba que você não está equivocada. Contudo, essa é apenas uma pequena parte do todo.
Para a filosofia Vaisheshika e, consequentemente, para o Ayurveda, o prazer está relacionado ao contato dos seus sentidos com o mundo externo. Diante disso, tudo o que causa uma sensação agradável em você é sukha. E aqui temos um universo inteiro de possibilidades.
Comer determinado alimento, massagear os pés, tomar banho, ver um por do sol, andar descalça na terra, sentir o aroma de café coado na hora, receber um cafuné…
Duhkha: nem sempre um sofrimento
A ideia de que duhkha se resume a sofrimento também é bastante complicada. Isso porque a palavra sofrer vem do latim sufferre, que significa “estar sob ferros”, isto é, acorrentada. No entendimento atual, sofrer é equiparado a um tormento, a um padecimento profundo.
Contudo, para a filosofia Vaisheshika, duhkha é qualquer experiência desagradável pela qual você passe. Isso pode ser o rompimento de um relacionamento, comer algo estragado, pisar em uma água viva, quebrar o braço, enfim… milhares de possibilidades.
O importante a compreender aqui é que a dor é inevitável. Em algum momento ela vai acontecer e faz parte da dinâmica da vida para todo e qualquer ser vivo. E o Ayurveda já afirmava isso há milhares de anos, não como uma ameaça, mas como uma constatação de que a ayus, a vida, é feita de momentos doces e amargos.
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Smrtija e Samkalpaja: a dor e o prazer produzidos pela mente
Como eu disse antes, o Ayurveda assume que a mente é uma espécie de sexto sentido, já que comanda os nossos cinco sentidos físicos. De fato, ela unifica todas essas sensações para que Atma as experiencie.
Você também deve saber que a nossa mente armazena a memória dessas sensações e é capaz de imaginar ou criar coisas. É a partir dessa compreensão que Prashastapada, um dos filósofos mais importantes do Vaisheshika darshana, divide sukha e duhkha em dois tipos:
- smrtija: é quando lembramos de alguma sensação boa ou desagradável e revivemos isso de alguma forma.
- samkalpaja: é quando sentimos dor ou prazer por algo que está por vir ou que imaginamos que vá acontecer.
Perceba que nossas mentes são capazes de criar sensações sem acionar diretamente nossos cinco sentidos físicos. Ademais, podemos lembrar e reviver situações passadas também sem envolvimento direto dos nossos sentidos.
O que sukha e duhkha têm a ver com saúde e doença?
Agora que você já sabe que sukha é toda sensação agradável que você sente e duhkha é toda sensação desagradável, podemos fazer a ponte com a saúde e a doença.
Para o Ayurveda, a doença surge da união excessiva, insuficiente ou inadequada entre a mente, os órgãos dos sentidos e seus objetos.
Por exemplo: a comida é um objeto para os nossos sentidos. Nossos olhos veem a comida, nosso olfato sente o cheiro da comida e o nosso paladar sente o gosto. Esses sentidos enviam uma mensagem para a nossa mente, do tipo “hum… essa comida deve estar deliciosa”. Então, comemos.
Se comemos demais, de menos ou fazemos uma mistura insalubre de alimentos, estamos aumentando as chances de adoecermos, já que a interação entre mente, sentidos e objetos é inadequada.
O mesmo é válido para quem sai de short e camiseta num frio de 5 graus, para quem vara a madrugada assistindo séries em vez de dormir ou para quem faz atividades físicas em excesso sem o descanso adequado, por exemplo.
Em outras palavras, toda vez que desrespeitamos a nossa natureza e a nossa relação com o ambiente externo estamos abrindo uma brecha a mais para adoecermos. É por essa razão que o brahmacharya é um dos três pilares do Ayurveda.
Agora, a pergunta que fica é se a nossa mente, ao relembrar memórias passadas ou imaginar situações futuras, pode desencadear doenças.
A resposta, ao meu ver, é sim, já que a nossa mente não está isolada em nosso cérebro. Ela permeia todo o nosso corpo. O Charaka Samhita nos explica isso de forma bastante assertiva. Segundo ele, Atma se une aos panchamahabhutas e a partir daí a mente se manifesta.
Se os nossos corpos são feitos de panchamahabhutas, então Atma e mente estão em cada célula e cada átomo que nos compõem. Logo, qualquer desequilíbrio na mente é sentido pelo corpo e vice-versa.
Também podemos comprovar isso a partir do entendimento dos doshas. Cada dosha é formado pela combinação de dois panchamahabhutas. Cada panchamahabhuta é formado por um ou dois mahagunas — sattva, rajas e tamas —, os quais também estão presentes na mente. Portanto, a qualidade dos nossos pensamentos e a forma como lidamos com as nossas memórias e expectativas também moldam a nossa saúde.
Obrigada por me ler até aqui e a gente se fala no próximo artigo.
Eve.
Referências:
GOSWAMY, D. A study of Nyaya-Vaisheshika categories with special reference to Tarka Samgraha. The Gauhati University, 2014.

