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Se você está dando os primeiros passos no Ayurveda, já deve ter ouvido falar dos doshas. Essas três entidades biológicas são responsáveis por todas as ações que ocorrem em nosso organismo, como a respiração, o metabolismo e a hidratação, por exemplo.

E sempre que pensamos em vata dosha, é comum lembrarmos do quanto ele pode ser incômodo. Afinal, ele é responsável por um grande número de doenças. Mas o que nem sempre paramos para pensar é que sem ele nossa vida não existiria.

Curiosa para saber o porquê? Continue a leitura e entenda melhor o que é vata dosha, quais são as características dele e como você pode ter uma vida mais harmoniosa mantendo-o em equilíbrio!

O que é vata dosha?

De acordo com o Charaka Samhita, um dos textos mais antigos do Ayurveda, vata dosha é o nosso próprio élan vitae, isto é, a nossa força vital. Chakrapani, um dos mais reputados comentadores desse texto, vai além, comparando o élan vitae a ayus, isto é, a vida. Ele diz:

“Ayus, ou élan vitae, é a união do corpo, dos sentidos, da mente e da Alma”.

Ao traçarem esses paralelos, Charaka e Chakrapani colocam o dosha vata como central para a nossa sobrevivência, uma ideia que é corroborada por Sushruta, que nos diz que vayu (vata) é a causa da origem, sustentação e destruição dos seres vivos. Ele vai ainda mais a fundo, dizendo que vayu é auto-nascido, onipresente, onipotente e eterno.

Essas características fazem do vata o mais importante entre os doshas do corpo, até porque, sem ele, kapha e pitta dosha seriam imóveis ou inertes. Ou seja, sem a presença e funcionamento adequado de vata dosha, pitta e kapha não cumprem suas funções.

Outra questão determinante que precisamos saber sobre vata dosha é que ele é o responsável por todo tipo de movimento que ocorre em nosso organismo, do abrir e fechar de olhos até os movimentos peristálticos do nosso sistema digestivo, passando, é claro, pela nossa locomoção.

Além disso, ele está presente no sentido do tato. Isso quer dizer que ele é o grande responsável por percebermos o mundo físico. Afinal, você pode até ver, mas sem tocar, você não consegue ter certeza de que algo realmente existe, certo?

Vata dosha é composto pelos panchamahabhutas akasha e vayu, isto é, espaço e ar. Logo, ele também é formado por sattva e rajas, o que lhe confere uma característica de movimento e ação, não só no corpo como também na mente. É por isso que uma pessoa com vata dosha em desequilíbrio acaba tendo sintomas como pensamentos acelerados, ansiedade e insônia, por exemplo.

Como o dosha vata age dentro e fora do corpo

Como você viu, vata dosha é onipresente, o que significa que ele permeia todo o Universo. No entanto, Sushruta nos diz que ele é imanifesto, isto é, não podemos percebê-lo senão por suas ações. Um exemplo simples é que você não vê o vento, mas percebe as folhas dar árvores se movimentando ou até mesmo a brisa tocando seu rosto. Agora fica com esse exemplo na sua cabeça.

Quando o vento toca seu rosto, você consegue perceber se ele é mais quente ou mais frio e se ele está mais seco ou mais úmido, certo? Essas características que você consegue perceber são chamadas de gunas no Ayurveda.

Cada dosha possui um conjunto de gunas (propriedades) que nos ajudam a reconhecer quando ele está em ação. E é a partir dessas propriedades que conseguimos identificar se um dosha está agravado ou não.

Mas afinal, quais são os gunas de vata dosha? Segundo o Charaka Samhita, são:

  • ruksha (secura);
  • laghu (leveza);
  • shita (frieza);
  • daruna (instabilidade);
  • svara (aspereza);
  • vishada (clareza).

Charaka também nos diz que vata dosha é incorpóreo, ou seja, não possui forma física, o que coincide com ele ser imanifesto. Além disso, o Ashtanga Hrdayam cita sukshma ou sutileza como um guna de vata dosha.

Quando essas propriedades se apresentam de uma forma acentuada, como uma pele seca ou perda de peso repentina, é sintoma de que existe um desequilíbrio do dosha vata.

O contrário também pode acontecer: uma pele muito oleosa ou o ganho de peso repentino podem indicar uma deficiência de vata dosha no organismo.

Esses são exemplos de influência do vata dosha no mundo interno, isto é, nosso corpo. Mas o Charaka Samhita também aponta as influências do dosha vata no mundo externo, ou seja, na Natureza.

Funções de vata dosha no meio ambiente

Quando você se aprofunda no Ayurveda, compreende que ele é muito mais do que um sistema de medicina. Para começar, trata-se de um conhecimento que pode ser aplicado a qualquer forma de vida, não só seres humanos. E mais do que isso, ele te ensina a compreender como a realidade se manifesta.

A premissa básica do Ayurveda é que absolutamente tudo o que existe é formado por panchamahabhutas. Isso significa que a um nível microscópico, você, eu, uma árvore, uma pedra ou até mesmo um rio temos exatamente a mesma constituição.

Esse comparativo não é à toa. As civilizações antigas, assim como os povos originários do planeta, não se viam — e não se veem — apartados da Natureza. Pelo contrário, veem-se como um reflexo Dela. Um microcosmos dentro de um macrocosmos. Portanto, tudo o que acontece dentro de nós também acontece fora de nós.

E quais são os sinais de um vata dosha desequilibrado na Natureza? Inundações, terremotos, erupções vulcânicas, incêndios, tsunamis, pandemias… tudo o que temos visto com cada vez mais frequência.

Sub-doshas de vata: entrando na complexidade

Todos os doshas do corpo — vata, pitta e kapha — possuem 5 subdivisões. Essas subdivisões ou sub-doshas são responsáveis por funções específicas dentro do nosso organismo. No caso de vata dosha, nós temos:

Prana vayu

Prana vayu é a entidade responsável por todas as ações que envolvem o ar na parte superior do nosso corpo, isto é, respiração, espirro, arroto, cuspe e deglutição dos alimentos. Ele se localiza na cabeça, garganta, língua, boca, nariz e peito.

Udana vayu

Udana vayu trabalha em relação direta com prana vayu e é responsável pela fala, esforço, entusiasmo, força e compleição. Ele se localiza na garganta, peito e umbigo.

Samana vayu

Samana vayu é o subtipo de vata dosha que atua diretamente na digestão, trabalhando em conjunto com pachaka pitta e kledaka kapha.

Sua localização fica próxima ao jatharagni. Além disso, ele penetra pelos canais de eliminação do suor, pelos canais de circulação dos doshas e também pelos canais de circulação de água do nosso corpo. É por isso que qualquer problema em samana vayu afeta rapidamente a digestão e se espalha por outros locais do nosso corpo, podendo desequilibrar também pitta e kapha dosha.

Vyana vayu

Vyana vayu está presente em todo o nosso organismo e move-se muito rápido. Dessa forma, é o responsável por movimentos como piscar os olhos, contrações musculares e reações repentinas.

Apana vayu

Apana vayu, por sua vez, está localizado na região urogenital, compreendendo o umbigo, útero, ovários, bexiga urinária, ânus, cólon, pênis e testículos. Ele é o responsável pelas funções de eliminação do nosso corpo, seja de urina, fezes, menstruação ou sêmen. Para as mulheres, ter um apana vayu em equilíbrio é essencial na prevenção de doenças ginecológicas.

Quando diagnosticamos um desequilíbrio de vata dosha, temos que compreender qual — ou quais — dessas subdivisões está desequilibrada. Por isso, é fundamental entender quais são suas funções e como elas se relacionam não só entre si, mas também com os subtipos de pitta e kapha dosha.

O que causa o desequilíbrio de vata dosha?

O princípio básico do dosha vata é o movimento. Nesse sentido, qualquer tipo de estagnação ou aprisionamento desse movimento pode gerar desequilíbrios profundos. Isso pode se dar de inúmeras maneiras: desde segurar aquele xixi enquanto não chega em casa, até não nutrir sua mente de novos conhecimentos.

O contrário também é verdadeiro: forçar-se a fazer xixi antes de sair de casa sem que você esteja com vontade de urinar, bem como o excesso de informações sem um propósito, também podem agravar vata dosha.

É claro que a alimentação joga um papel determinante nessa equação. Nesse sentido, alimentos que possuem sabor amargo, picante ou adstringente são os principais causadores de desequilíbrio em vata dosha. Mas também podemos citar a falta de untuosidade, de viscosidade e de peso como fatores que potencialmente agravam o dosha vata. Por essa razão, a melhor forma de se alimentar é mantendo refeições equilibradas, que tragam variedade ao prato e promovam saciedade.

Outro ponto fundamental para o equilíbrio ou desequilíbrio de vata dosha é o sono. Dormir o suficiente é essencial para reparar o nosso organismo do desgaste diário, seja físico ou mental. Portanto, quando não respeitamos essa necessidade básica do nosso corpo, desequilibramos vata dosha, que passa a se comportar de forma errática. Esse aumento pode gerar outros problemas, como dores de cabeça, irritação, tremores, entre outros.

Por fim, temos a questão da digestão. Quando temos um problema digestivo, existe uma grande chance de bagunçarmos o funcionamento de samana vayu. Lembra que ele é o dosha que penetra em outros canais de circulação no organismo? Pois bem, se samana vayu aumenta demais, pode gerar questões como inchaço abdominal, gases, refluxo, constipação ou diarreia, entre outros problemas.

Como reequilibrar o dosha vata?

Eu poderia dizer para você comer alimentos doces, azedos e salgados, fazer musculação e inserir a oleação diária na sua rotina. Contudo, essas indicações só podem ser feitas depois de uma análise completa de quem você é e quais desequilíbrios estão afetando o seu corpo.

Por isso, prefiro dizer que o equilíbrio de vata dosha está em saber levar a vida com mais leveza e fluidez. E aqui deixo algumas dicas simples para manter o vata dosha em equilíbrio:

  • Crie uma rotina que te possibilite dormir cedo, entre 21h e 22h, e despertar entre 5h e 6h.
  • Guarde nem que seja 5 minutinhos do seu dia para fazer um exercício de respiração profunda, inalando e exalando o ar de forma lenta e ritmada. Se for possível, faça isso por 10 ou 15 minutos.
  • Desenvolva o hábito de descansar física e mentalmente, deixando de lado notebook, celular e televisão. Leia um bom livro ou saia para caminhar.
  • Escolha alimentos que nutrem o seu corpo, não aqueles que enchem o seu estômago.
  • Prefira sempre frutas, verduras, legumes, feijões, lentilhas, raízes… O Brasil é um país abençoado com fartura de alimentos que vêm da terra. Valorize isso.

E aqui fica um alerta: existem muitos conteúdos falando sobre dieta para o dosha vata, conectando com a ideia de que se você tem uma prakrti com predominância de vata dosha deveria comer este ou aquele alimento. Essa é uma interpretação equivocada e que pode causar o efeito contrário na sua saúde.

Dieta para dosha vata: um equívoco evitável

Se existe um desequilíbrio de vata dosha no corpo, o alimento se torna um medicamento para solucionar esse desequilíbrio. Ou seja, não é algo que você deveria fazer sempre. Uma vez que o dosha retorna ao seu estado normal, você só precisa levar uma alimentação equilibrada, consumindo alimentos variados.

E, se você tem uma prakrti com predominância de vata dosha, não precisa se preocupar, pois esta é a sua natureza, a sua essência. A medida a ser adotada é uma alimentação oposta ao ambiente no qual você vive, não contrária ao que você é em essência.

Por exemplo: se você vive no Nordeste brasileiro e tem uma prakrti vata, deveria consumir mais alimentos doces, azedos e salgados. Também deveria introduzir gorduras saudáveis na sua dieta, como o azeite de oliva, e fazer mais oleação corporal do que uma pessoa que vive no Sul.

Consegue perceber a diferença? Se você adota uma dieta anti-vata tendo uma prakrti vata, está atacando a si mesma, o que pode levar a problemas profundos. Por outro lado, se você controla os fatores externos que podem provocar um aumento de vata dosha no seu organismo, como alimentos muito secos, amargos e adstringentes, você tem domínio sobre a sua saúde.

Espero que este artigo tenha te ajudado a entender melhor o que é vata dosha e qual a importância dele dentro do contexto do Ayurveda. E caso você queira dar continuidade ao seu aprendizado, te convido a assinar a minha newsletter. Semanalmente envio novos conteúdos que te ajudam a ter mais saúde de forma simples e natural com base nas medicinas tradicionais.

Um forte abraço e a gente se fala no próximo artigo.

Eve.

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Évelim Wroblewski

Geminiana, comunicóloga, taróloga, terapeuta Ayurveda e da Ginecologia Natural. Possui Especialização em Striroga (Ginecologia Ayurveda) e Manas Vijñana (Psicologia Ayurveda). Cursou Formação em Medicina Tradicional e Herbolaria Andina, Formação em Parteria Ancestral Andina e Diplomatura em Medicina Tradicional e Cosmovisão Indoamericana.

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